Arquivo Mezanino Sao das Colunas Elipsoidais Mezanino Quarto para atravessarSalao Morsa

MICK JAGGER, BUKOWSKI e alguns SCHETTINOs

Eu trabalhava, paralelamente ao meu desejo sonho atitude de arte contemporânea, em uma loja de souvenirs. Loja simpática em cores e objetos embora ordinária como muitos comércios e com vendedoras perversas e problemas psicossomáticos graves.

A mulher veio ate o balcão e retirou da carteira uma nota.

- Não Madame, esta nota não aceitamos, aqui é em euros. Respondi.
- Oh, eu só tenho libras.
- Calma. Vamos ver.
- Eu quero muito comprar este leãozinho.
- Ok, eu compro suas libras.

Trocamos 1 por 1. Tempo de baixa da libra. Tempo de queda econômica por todo lado. Ao final, eu com 5 libras. 5 libras. Minhas primeiras libras. Uma nota relíquia na minha miúda carteira europeia.

Saí do trabalho, noite agradável e até mesmo doce de inverno, viro a esquina, atravesso a rue du Louvre calmamente e dou de frente com : Mick Jagger.

Saiu de um carrão, atravessou a calçada bem rápido protegido por um segurança e entrou no restaurante com clima japonês.
Paralisei. Primeiro pensamento : é o Mick Jagger ? Segundo pensamento:: mei irmão Giovani iria amar. Analiso entre as persianas da vitrine. É. Converso com o segurança dele. É o Mick Jagger mesmo. Puta que pariu, realmente meu irmão iria amar. Um dinossauro vivo e ao meu lado. O segurança me respondeu: ele sai às 22:30. Era 20:30.

Continuo minha trajetória, agora acelerada cardiacamente, em direção à epicerie. Compro uma caixa como o escritor Bukowski. 6 garrafas. Vou ver as projeções audiovisuais da minha amiga Carol. No caixa, converso com o já conhecido e amigo vendedor, pago e aí surge o relâmpago pensamento : Mick Jagger ali do lado. Não, não vou ver as projeções audiovisuais hoje. Vou homenagear meu irmao rock n’roll. Deixo a caixa à la Bukowski  e falo :

- Pego daqui a pouco. Antes vou pegar um autógrafo do cara ali.

O vendedor se entusiasmou todo, ofereceu papel, caneta, perguntou se eu tinha câmera e só faltou dizer pega um pra mim também. Saí com uma lata na mão e fui procurar uma banca que pudesse ter discos do Rolling Stones. Claro que na banca e como em todas pelo mundo reina artigos quotidianos e pornô. Sintoma total da nossa sociedade contemporânea.
Re-estratejar abordagem mão dinossauro. Voltei na loja e peguei 3 objetos : um leão, um calendário manipulável e um colar de elefante. Tudo bem exótico bem souvenir bem eu.

Pensei : o segurança me disse 22:30. Vou chegar 22:00. Pronto, quando cheguei às 22:00 o segurança se surpreendeu. O telefone dele tocou na hora e eu vi pela vitrine : era o dinossauro ligando para ele ; Já tinha acabado lá dentro. Eu como bom brasileiro tinha afinal driblado este segurança ou como um fã que é capaz de assassinar John Lennon.

O segurança ainda se achando esperto e inteligente pediu para ver minha mochila. Concordei com a estupidez e ele sem saber que um revólver pode estar acoplado em qualquer parte do corpo ou mesmo que um revólver é um disparo de raciocínio humano. Mas não sou contra os seguranças e inclusive às vezes trabalho assim para ganhar um, mas meu pensamento se difere da maioria.

Mick Jagger saiu e nos encontramos. Nunca me senti tão brasileiro e italiano, como sou, pela forma aberta que falava, pela forma aberta que ele me recebia :

- HI BRAZIL – comecei
- OH BRAZIL. COPACABANA (ficou claro no seu semblant o gosto. E nao somente do trabalho bem realizado conjugado com o Brasil, os prazeres, as mulheres, a imensidão de praias e nem que foi mais um show, mas foi o SHOW para uma nação inteira, para um mundo inteiro, sem arrogância, sem maiores violências no Rio e absolutamente libertário e democrático.)
- GIFTI – presentiei
- LION. THANKS.

Ventava muito neste momento. Ele se protegeu do vento, afinal não tem segurança que barre isto. Antes de entrar no carrão eu pedi :

- Autographe. Giovani. Diovani.
- Yes.

Pequei a mochila, dei uma revistada e achei um papel, o mesmo da cerveja em lata que é para beber na rua. Encobridor de álcool. Mas pensava na nota de 5 libras… no mesmo dia do Mick Jagger… um autógrafo na nota e o valor não é o mesmo. Não não, não vou associar valores. Tem mais a ver o papel branco do encobridor de álcool que a piruca encaracolada do cara do The Royal Bank of plc Five Pounds.

Procurei uma caneta e não achava. Achei um bastão tipo caneta, mas era secador de espinhas. Kkkk. Meu deus, isto não serve agora, o que que este bastão esta fazendo aqui? Ah, para secar meu envelhecimento e do Mick Jagger ? kkkk 1 :30 de antecedência do encontro e eu não tinha os elementos básicos de um fã. E o dinossauro ali vendo eu e minha mochila. Achei uma caneta ! Rimos. Verdadeiramente eu sou um péssimo fã.

Finalmente, ele escreveu-falando :

- FOR GIOVANI

Despedimos sem beijos. Voltei à epicerie, peguei a caixa à la Bukowski. Entrei em uma cabine de tel e fiz a correspondência à cobrar para meu irmão. Fui a um café-bar e um conhecido quis comprar o autógrafo por 50 euros. O comércio ordinário continuava…as libras, os euros, …mas não tem preço homenagear um irmão. Nao tem preço homenagear um artista que não é relâmpago de marketing do momento.

Souvenir: Jumping Jack Flash.
Obs: Obrigado Rodrigo Schettino pelo livro do Bukowski. Aliás, pelos livros, sempre companheiros. Sem pressionar, terá um próximo?

JAZZ E CONSCIÊNCIA DO MULTICULTURALISMO

Subir as ruas e escadarias de Montmartre, considerado hoje um dos bairros da nova burguesia boêmia de Paris, olhar para trás e ver uma luminosidade cinza sobre a cidade. Não é anunciação de nenhuma catástrofe nem poluição, é chuva que avança. Começa fininha e o público ainda está nas escadarias a entrar na Arènes de Montmartre para ver o evento Arènes du Jazz, na noite de 22 de julho de 2009, com a cantora MINA AGOSSI, quando ela mesma aparece nas escadarias e proclama: vocês são muito corajosos de estar aqui hoje. Muito obrigado.

E começa a subir e a cantar.

Na hora pensei: já posso ir embora porque é muita emoção ver uma grande artista em plena rua-escadaria cantar de agradecimento pela presença do outro. Um canto para uma cidade inteira.

Mas quem é MINA AGOSSI que os jornais parisienses como o LE MONDE, LIBERATION e revistas especializadas estampam: a Bjork du Jazz ou a cantora de jazz, nao como os outros, que mais ousa e ousa.

O título de seu último e celebrado álbum: SIMPLE THINGS (2008) aponta o caminho associado com o que pode-se ver-ouvir em cena: um repertório de músicas com arranjos e composições absolutamente autênticas, de Jimi Hendrix à Pink Floyd, da Espanha à Africa.

MINA que significa um pássaro africano, não está só nesta travessia. Esta jovem mulher franco-beninoase está acompanhada do contra-baixista francês ERIC JACOT e do entusiasmado baterista japonês ICHIRO ONOE.

Impressionate como o trio é mais que competente, é excelente. Sem exageros jornalísticos ou familiares. Utilizam seus instrumentos a fundo e em diversidade. É mesmo um trio do mundo, desde os integrantes até a escolha do repertório, ressaltando consciência do multiculturalismo e suas responsabilidades.

Apresentando um focus da competência e consciência do concerto: momento Jimi Hendrix e sua crítica à guerra. MINA já declarou que é capaz de fazer um disco inteiro em homenagem a Jimi. Qualidade do jazz com o rock anos 70, que ela adora.

Momento Espanha, é de intimidade e dores do desejo. Muito interessante o japonês tocando a bateria com o proprio punho.

Momento africa: aqui ela descabela, canta com o tronco e a cabeça para baixo até o chão. E chove. E chove. O público não se move, se molha, se emociona. Espetáculos ao ar livre tem esta graça: estão todos sujeitos a múltiplos acontecimentos.

Momento Bjork? Pode ser na música que ela fala que precisa de um DOCTOR. Agudos e mais agudos quase infantis mas com muita dramaticidade sem ser melodramática. Todos eles sem medo de experienciar.

Momento Pink Floyd: MONEY. E o contrabaixista faz um solo memorável com seu grande instrumento. É possível ver dança contemporânea nesta relação.

E claro, momento bis: BELÍSSIMO. Mistérios, secretos, …MINA AGOSSI tem humor e “brinca” aqui rapidamente (como brincou anteriormente com Michael Jackson, mas o Billie dela é de Billie Holiday) com àrias à la italiana. O público se diverte. É mais um país circulando por estas vibrações sonoras. Como o trio que circula por Europa, África e também renomados clubes de jazz dos EUA pois os músicos Archie Shepp e Ahmad Jamal os convidaram e os produziram.

A pergunta é inevitável: e o Brasil?

MINA me recebeu no camarim-trailler com enorme simpatia e generosidade (como já antes demonstrado em avant-cena e em cena) assim como seus amigos e agentes culturais presentes e disse para todos:

- Eu venho do Benin, família de escravos e que eram enviados para Salvador-Brasil e Antilhas. Nunca fui ao Brasil e além da importância da história da escravidão tenho admiração por (ela cantou): é pau / é pedra / é o fim do caminho…

É o inicio de um caminho, MINA AGOSSI em Minas, em Salvador, no BRASIL.

Gustavo Schettino

O PÁSSARO NEGRO DE MYRIAM GOURFINK

CORBEAU é uma composição coreográfica da francesa Myriam Gourfink para uma bailarina clássica, no caso GW. Vauthien, bailarina do Ballet de l’Opera National de Paris.

Em um momento histórico que podemos constatar uma ocorrência em vários criadores de dança contemporânea que é a crítica e deboche à dança clássica, Myriam percorre o caminho inverso e, com seriedade de extremo respeito, enaltece a dança clássica, mas inserindo no corpo da bailarina uma outra temporalidade. O que ela está a propor é dança em evolução.

E dança em evolução, nao é fazer releitura do famoso Cisne branco. Ao contrário, o animal de referência e preferência é CORBEAU (corvo), um pássaro negro.

Nao há voos e muito menos os grandes saltos de ballet. O que há é uma escritura de corpo vertical e o que a coreógrafa chama de A PRESSÃO SOBRE O AR. Afirma: “Eu me confronto com o ar que nos circunda, no prolongamento de nosso corpo no ar, e eu escrevo a partir desta sensibilidade”.

E sensibilidade de Myriam Gourfink é alargar a percepção de corpo-tempo-espaço assim como a relação nao submissa de dança e música.

Cada mover-se lento é peso deslocando-se no corpo e no espaço. Podemos ver veias e musculaturas em contrastes na pele branca da bailarina sem tchu tchu.

Se há vocabulário de dança clássica, há também vocabulário de yoga, pratica que Myriam adquiriu nos ultimos anos.

De uma ponta a outra
De um ponto do espaço a outro
ininterruptamente
o tempo aqui tem peso e é entendido como linguagem.
E a musica live reforça este conceito de tempo, construindo um espaço sonoro através de batidas nos 2 pratos de percussão, reverberando micro ou macro células sonoras acopladas por dispositivos eletrônicos. Um duo imerso e luminoso.

Muito compreensível perceber que Myriam é uma jovem coreógrafa/bailarina muito querida por profissionais de dança, crítica e público, mesmo assimilando seus trabalhos por estranheza. Assim é, e por onde ela passa, é pensamento contemporâneo em foco e em debate.

Gustavo Schettino

Elástico pressionando CARNE pressionando imagem e pensamento

Em pleno verão irregular de Paris, manhã de segunda-feira, precisamente 11 de agosto de 2008, às 11 :00 horas, a bailarina-coreógrafa carioca Micheline Torres nos convida e nos acolhe amigavelmente no studio 1 do belo CND- centre national de danse/Pantin-Paris para ver sua composição coreográfica CARNE, primeira parte do seu projeto Meu corpo é minha política.

Neste dia…( como em todos os dias ) podemos mudar nossa trajetória de hábitos quotidianos.. Mudanças, não exatamente por ser e acordar em uma manhã, depois de noites curtas devido ao fuso horário de verão europeu, mas por tratar-se da proposição conceitual do trabalho artístico ou como disse rapidamente uma jovem francesa : hoje não como carne. Mudanças pois meu corpo é minha política.

O trabalho CARNE que tem em seu primeiro momento a relação corpo-frango não discute sobre comer ou não comer frango e suas implicações ou mesmo da tão recente crise da gripe do frango (2006), frangos contaminados. A contaminação que ela nos propõe refletir é sobre o corpo e um certo esvaziamento e transformação do sujeito contemporâneo diante do progresso das possibilidades técnico-científicas, o que quer dizer ciência-medicina-cirurgia estética-mídia-comportamento-filosofia e claro, arte.

Micheline começa o trabalho, sabiamente, conversando com as pessoas presentes na sala e informa que o público tem liberdade para mover-se, deslocar de um lugar para outro, ver a cena mais de perto, por exemplo sentando nas cadeiras colocadas em frente a grande mesa, esta localizada no fundo da sala. E é sobre esta mesa que a artista « opera » todo o trabalho ;

De maneira ritualizada como médicos em volta do paciente na mesa de cirurgia, que a artista pega os objetos da operaçao acoplados estrategicamente em seu próprio corpo : saco plástico preto-pano de mesa = região vagina, luvas= seio, pasta de dente e escova= cintura, faca= quadris-costa.

Abre uma peça de frango. Sim, frango, daqueles gordinhos e bonitinhos que você pode escolher e comprar no açougue ou em standes de congelados nos supermercados. Retira um órgão e deposita na mesa. Retira a camisa e introjeta-a no interior do frango. Começam as conexões : corpo-animalidade, corpo artificialidade.

Avança mais na relaçao do corpo com o frango, seja no principio de escatologia ao cuspir saliva e pasta de dente na lubrificação do frango, seja na acalentação e amamentação do mesmo, como frango-feto. Oh mon bebe, minha imagem e semelhança.

A performance pode parecer ter fim no momento que termina a acalentação. Mas é exatamente neste momento que Torres avança ainda mais nas proposições : da medicina veterinária para medicina estética.

Utilizando impressionantemente o elástico cirúrgico, como aqueles que são atachados em nossos braços para pressionar e elevar a veia na transfusão de sangue, que Micheline «  dá sangue » e «  dá show » . Os vários elásticos, e que já estão atachados no corpo da performer desde o início, estão em diversas parte de seu corpo, totalmente nu. Ela manipula-os diversas vezes, diversas formas, configurando diversas « personas e pensamentos » .Elástico pressionando sangue, pressionando imagens.

Primeiro momento, assim como um desfile de um corpo belo, saudável, apolíneo-afrodite ou especificamente e com humor sutil e sofisticado : o fio dental da brasileira na praia. E olha que ela é carioca e é soberana em cima da mesa e sua dança-marcha sem sair do mesmo lugar sob uma música eletrônica interroga : para onde levara esta caminhada deste possivel corpo belo proporcionado pela medicina ? Este corpo com preenchimentos artificializados está desprovido da nobre capacidade humana que é o pensamento ? Na sociedade da informação ou mesmo da consumação, estamos sublinhando é o conceito da exibição ? Exibição do vazio ou quem sabe do nada ?

O corpo da bailarina brilha e sem efeitos : é suor de dança, manifesto de seu pensamento. Meu corpo é minha política..

E os elásticos nao param de serem manipulados, claro que sem virtuosismos pois este é também um dos pontos de interrogação sobre o próprio metier : dança é o show de performance com piruetas e malabarismos do corpo ?

Elástico pressionando por muito tempo o sangue, pessionando imagens estranhas : corpo e deformidades ou mesmo corpo que produz monstruosidades. Monstruosidade aqui entendido como questão : o que é que você está fazendo com seu corpo, com a trajetória de sua vida ? Está sendo manipulado e sacrificado por sistemas midiáticos complexos de difusão do belo ? Não há mais percepção do outro a não ser na esfera do belo ou da violência ?

Para finalizar, dentro deste quadro de deformidade-monstruosidade e imagens do corpo, elástico, sangue e suor : Raimund Hodge. É muito possível o imaginário associar neste momento com Raimund, coreógrafo-bailarino e ex-dramaturgo de Pina Bausch. Raimund é handicap e dança. Dança com senso do cineasta italiano Pasolini : corpo como resistência. Mais uma vez : meu corpo é minha política e com elástico pressionando CARNE, pressionando imagem e pensamento.

Gustavo schettino

OBS : obrigado Flávia Meirelles por ressaltar o titulo.

BRAÇO NEGRO ERGUIDO EM PUNHO FORTE

No país berço que comemorou os exatos 40 anos do MAI de 68, pude assistir-participar recentemente, não de uma revolução propriamente dita, mas de um espetáculo de dança contemporânea com gesto-pensamento marcante e similar a uma das imagens ícones do MAI de 68: um braço erguido em punho forte – sem medo de lutar (dançar) e tambem de vociferar.

Com braço negro erguido em punho forte, sob uma iluminação simbólica de grades, que o coreógrafo-bailarino senegalês Pape Ibrahuma Ndiaye (=Kaolack) termina sua composição coreográfica J’accuse!, vencedor do Laureats 2008 – solo, do 7 Rencontres Danse L’Afrique Danse, uma promoção do CulturesFrance.

Quando dança engloba política, emoção e desejos de reação e liberdade.

Em J’accuse de Kaolack (e também mesmo título e importância de um texto polêmico de Émile Zola) há uma crítica ao estado de passividade do próprio povo africano diante de várias injustiças sociais. Ele acusa o povo africano assim como o contexto internacional de poder abusivo e gerador de excludentes.

Mais que acusar, o senegalês vocifera.

Vocifera como um grande animal africano, mas a animalidade de que nos fala, não é das savanas africanas, é sobre PODER. Vocifera sobre escravidão e VISA (visto), o uso do passaporte e do direito de ir e vir, percorrer continentes. E nao fala só de poder ser livre e estar em movimento pelos continentes. Seu grande corpo negro parece declarar: cada corpo é um continente. E no teatro, ele não hesita, não perde a oportunidade de ir em direção ao outro, à platéia e vociferar sobre o público. E percorrer as cadeiras como se estivesse faminto, sobretudo necessitando de outras vidas, não acomodadas e pacatas. E este ato faz com que Kaolack transpire, transpire e seu corpo pingue e exale odor forte sobre todos nós, emocionados por tamanha atualidade no assunto, força, coragem e atitude.

Retorna ao palco e dança, dança, brilha, corpo suor e luz sem efeito.

É de arrepiar, de chorar mesmo, ver um bailarino de dentes podres falar de coisas essenciais e urgentes e tudo isto no país do também Iluminismo, no país que adota atualmente várias e várias medidas para barrar a imigração africana.

Com sofisticação e humor, sabe criticar os clichês da dança africana e seus rebolados. Usa e abusa de mexer os quadris. A música como universos sonoros associativos. Não é música africana, é musica que propõe mundos.

Já não cabe discutir se o trabalho artístico de J’accuse é panfletário como as imagens do MAI de 68, distribuídas e fixadas pelas ruas de Paris, mas sim, de aprender com estas experiências humanas.

Ao final, o artista é ovacionado e de pé com muita emoção e razão, que aliás sao processados simultaneamente no cérebro humano, de acordo com pesquisas cientificas.

Trabalhos diversos de arte, política e ciência que são braços erguidos ao conhecimento e contribuem a diluir fronteiras.

Gustavo Schettino